13/10/2025
Se essa rua fosse minha
Cleonice Bourscheid
A br**cadeira de roda adentra a memória, traz uma doce lembrança do que já passou e não mais retorna. Reminiscências, reminiscências.... Ermo labirinto, pensamento, olho que enxerga dentro.
Se essa rua, se essa rua fosse minha...
Essa rua já foi minha. Todo o universo cabia dentro dela, todos os sentimentos, prazeres, tristezas, descobertas. Olho que br**ca. E ladrilhos rosa que brilhavam nos dias em que a chuva caía devagarinho, sem força, sem vontade de molhar, de fazer a terra virar barro ou formar pequenos espelhos, refletindo nossos rostos e br**cadeiras. Depois subia um v***r mágico, que desenhava figuras nos ladrilhos rosa da minha rua.
Eu mandava, eu mandava ladrilhar...
A gente br**cava de roda. – Ainda se br**ca de roda? – E quando a chuva chegava, corríamos para debaixo da marquise do prédio da esquina, um edifício feio, cinzento, que naquela época me parecia bonito. Olho que transforma. Era o único que havia na rua, até que demoliram o armazém do seu João e no lugar surgiu uma construção moderna com apartamentos. O armazém do seu João virou um mercado.
Com pedrinhas, com pedrinhas de brilhante...
As casas da minha rua eram revestidas de pequenas estrelas que cintilavam, refletindo os pingos de chuva ev***rados. Meu pai explicava que o brilho que nos encantava eram partículas de mica misturadas ao cimento. Para mim sempre foi poesia. Preferia acreditar que eram mesmo estrelas cadentes, que ali se alojaram e emitiam sinais para suas irmãzinhas perdidas no firmamento. Olho que brilha junto. Quando a chuva parava, corríamos para o meio da calçada a rodopiar de mãos dadas, girando, girando, girando, Verinha, Solange, Tereza, Marzinho, Lurdes, Chiquinho, Jane Beatriz. Pedrinha rolando, adentrando, adentrando, memória, infância, rua, universo, vida, percurso, caminho, eu, só. Às vezes, no meio das br**cadeiras, surgia a figura imponente de um homem vestido de cinza, na cintura uma faixa rosa. Era o Cônego Hélio, da Paróquia Nossa Sra. Conceição, que vinha para a visita semanal ao seu irmão, que vivia numa casinha branca, geminada à nossa. Dia de comer bolinho na casa do vizinho.
Para o meu, para o meu amor passar...
O Rafael foi o amor maior da infância. Menino bonito, o Rafael, pele morena, cabelos encaracolados. Não morava na rua de ladrilhos cor de rosa. Apareceu um dia e ficou observando nossas br**cadeiras com ar de menino mais velho. Aos poucos se aproximou, perguntando-me se iria à quermesse do colégio no sábado. Respondi que sim, que estaria lá. Ficou ainda me observando de um jeito que eu não conhecia e que descobri naquele instante. “Nanda, vamos br**car de amarelinha, é tua vez”. Um pouco sem graça joguei a pedrinha que caiu no céu. Engraçado, pensei que tinha caído no inferno, pois meu rosto ardia. Olho que queima. O Rafael me olhando, um calor subindo, a amarelinha, a br**cadeira de roda, eu corri para casa, o Rafael, o céu, o inferno, eu queimando.
Se eu roubei, se eu roubei teu coração, tu também, tu também roubaste o meu...
Cheiro de terra molhada, cheiro de menina virando moça, cheiro de bolo de fubá e bala de coco, cheiro de menino crescendo, cheiro, cheiro, cheiro, cheiro de infância há tanta partida, na rua da minha infância, já não se ouvem cirandas, nem campainha de corda, afiador de faca, patinete de menino, vendedor de maçã “Olha a maçã, olha a maçã!”. Olho que enxerga cheiros. O asfalto pintou de preto o granito rosa, bonito, bonito!
Se eu roubei, se eu roubei teu coração, é porque, é porque te quero bem.
A rua da minha infância era um coração pulsando pelo qual passavam todos os afetos e quereres. Olho que pulsa e gira.
Gira tempo, cheiro, memória, ciranda dos meus primeiros amores.
Que saudade me dá a rua da minha infância!