04/06/2026
uniforme da Seleção Brasileira: uma profecia sem molho
A Seleção Brasileira desembarcou nos Estados Unidos para os preparativos da Copa do Mundo de 2026 vestindo a alfaiataria impecável de Ricardo Almeida. Nada contra o estilista. Pelo contrário. Sua trajetória é consolidada, seu trabalho é sofisticado e sua assinatura estética já acompanha a Seleção pela terceira Copa consecutiva.
Mas a pergunta que não quer calar é: cadê o molho?
O uniforme virou apenas uniforme. Correto, elegante, bem executado. Porém, sem narrativa, sem risco, sem invenção. Ao olhar para aquelas imagens, tive a sensação de estar diante de uma versão tropicalizada das Aias , uma referência inevitável à série The Handmaid’s Tale. Tudo muito alinhado, muito controlado, muito neutro. E talvez seja justamente esse o problema.
O Brasil nunca foi neutro.
Somos o país da mistura, do excesso, da gambiarra criativa, da estética que nasce na rua antes de chegar às passarelas. Somos Carmen Miranda, Tropicália, Dener, Zuzu Angel, funk, maracatu, futebol de várzea e passinho. Somos contradição em movimento.
A alfaiataria apresentada veste um homem elegante, discreto e sofisticado. Mas esse homem existe na Seleção? Existe no imaginário brasileiro contemporâneo? Ou estamos projetando uma imagem que agrada aos mercados, às marcas e aos patrocinadores, mas que já não conversa com a identidade cultural do país?
Talvez o problema não seja o uniforme.
Talvez o problema seja continuarmos recorrendo aos mesmos nomes, às mesmas referências e às mesmas fórmulas em um país que produz talentos novos todos os dias. Ricardo Almeida veste presidentes, empresários e agora veste a Seleção. Mas quem está vestindo a imaginação da nação?