01/07/2024
Se eu puder fazer um pedido aos meus amigos virtuais de direita, é esse: parem de compartilhar a imagem com o texto “o fato de ser religioso não prova que você é uma boa pessoa”, com a foto de H1tler saindo de uma igreja. Vocês estão fazendo o papel de idiotas úteis da esquerda.
Em primeiro lugar, a imagem mostra um H1tler católico, o que ele não era. Apesar de ter sido batizado na Santa Igreja, ele jamais foi um católico “praticante” (e se não pratica, não é). Em seus escritos defendia um “cristianismo positivo”, uma versão “alemã” de cristianismo, que seria, na prática, uma transformação do Cristianismo em um arremedo pagão, sujeito aos interesses nacionais. A religião deixaria de ter o papel de religar o Homem com Deus e passaria a ser um meio de formatar um novo tipo alemão. Isso pode ser tudo, menos Cristianismo. Hi**er não era católico, nem ao menos cristão.
Em segundo lugar, a imagem sugere uma relação entre nazismo e Igreja. Isso é uma mentira grosseira que surgiu já com Stalin, para quem o Cristianismo (e especificamente a Igreja) era um inimigo mortal, e ganhou força com a então KGB. Daí, o serviço soviético passou a patrocinar e fomentar uma campanha de desinformação contra a Igreja, fornecendo uma “pesquisa” para que o comunista devoto Erwin Piscator produzisse e dirigisse a peça “O Vigário”, com uma “reinterpretação” livre segundo suas próprias convicções políticas. A narrativa do “Papa de Hi**er” para acabar com a imagem do Santo Papa Pio XII, ferrenho inimigo do comunismo, veio dessa operação de difamação, chamada de “Assento 12”.
A verdade, no entanto, era o oposto: o Papa ordenou a abertura das igrejas, escolas, conventos e universidades de Roma para esconder os judeus romanos. Ainda, o pontífice enviou núncios (embaixadores), bispos, padres e freiras para resgatar secretamente milhares de perseguidos, numa operação clandestina que ajudou até 900 mil pessoas a escapar dos campos de concentração. Essa operação foi conduzida sob ordens específicas do Papa. E não só isso: os arquivos do Vaticano comprovam que quando Roma foi invadida, foi pedido à comunidade judaica que entregasse uma certa quantidade de ouro, e o Papa deu ordem às paróquias romanas para darem todo o ouro que tivessem e assim ajudarem os judeus a fazer o pagamento.
Foi por essas e outras coisas que o nazismo empreendeu uma perseguição a todo padre que falasse algo em sua homilia que pudesse ser entendido como uma crítica ao seu projeto nacional. Os inúmeros casos de padres perseguidos, presos e mortos é o suficiente para demonstrar isso.
Em terceiro e último lugar, a imagem sugere que a religião não tem qualquer importância para a formação moral do indivíduo. Ora, uma moral só é possível mediante o reconhecimento de um ordenamento externo, superior e absoluto, sem o qual não é possível mediar as relações humanas. Isso só existe em uma realidade transcendente, igualmente externa, superior e absoluta, como finalidade última do Homem. Uma sociedade secular está presa a um enorme problema: ela defende como verdade que um indivíduo pode definir seu próprio conceito de existência, de sentido, de universo e do mistério da vida humana. Não é muito difícil de imaginar que como cada indivíduo goze de mesmíssimo direito, defendido com unhas e dentes, existem tantos conceitos de existência, de sentido, de universo e do mistério da vida humana quanto seres humanos habitam a terra. Nesse cenário, qualquer ordenamento moral é impossível, salvo por uma imposição arbitrária de certos grupos de indivíduos que decidem por si e para os outros seus próprios conceitos de existência, de sentido, de universo e do mistério da vida humana. E isso só pode ser feito mediante uma imposição por instrumentos coercitivos.
Tudo então é governado por decisões subjetivas, e não por padrões objetivos preservados por uma ordem criada. A lei, que deveria ser o último recurso para reprimir uma conduta imoral, passa ela mesma a ser a moralidade que deve ser forçosamente aceita.
O ensino da moralidade e da virtude não é uma garantia de que todas as pessoas se tornarão santas e jamais agirão de forma equivocada. Porém, é o reconhecimento de que moralidade e virtudes são anteriores e externas que possibilita e aumenta a probabilidade de os indivíduos escolherem viver de forma íntegra, porque eles recebem de três fontes (as virtudes, a moral e a lei), e não apenas de uma, a motivação para agirem assim.
E se temos hoje comunidades/partes da sociedade que agem assim independentes de religião, é porque estão inseridas e respiram um legado civilizacional de mais de 2.000 anos.