19/02/2025
“Eu vos pergunto:
- Qual o peso da luz?”
Clarice Lispector
Há momentos em que o quarto de um paciente parece conter todo o peso do mundo. O peso da dor, do medo, das despedidas adiadas. Mas há também outra presença, sutil e imensurável: a luz.
O que pesa mais – o corpo que se despede ou o brilho nos olhos que ainda reconhece um filho? A fragilidade da pele que se afina ou o sorriso que insiste em aparecer entre as pausas da respiração? O silêncio das palavras que não foram ditas ou a luz que emana de um simples “eu estou aqui com você”?
Na prática da medicina paliativa, aprendi que a luz não pesa. Ela flutua entre os gestos pequenos, na ternura de um toque, na voz que acalma. A luz está no olhar de quem ama e f**a até o último instante, na lembrança que ilumina mesmo durante a escuridão da ausência.
O peso da luz, se é que existe, talvez seja esse: ter coragem de abrir os olhos no tempo onde a tarefa mais pesada é ser capaz de iluminar até mesmo as sombras do fim.
ACQA