14/05/2023
Quando os Filhos Voam
Sei que é inevitável e bom que os filhos
deixem de ser crianças e abandonem
a proteção do ninho.
Eu mesmo sempre os empurrei para fora.
Sei que é inevitável que eles voem
em todas as direções como
andorinhas adoidadas.
Sei que é inevitável que eles construam
seus próprios ninhos e eu fique como o ninho
abandonado no alto da palmeira…
Mas, o que eu queria, mesmo,
era poder fazê-los de novo dormir no meu colo…
Existem muitos jeitos de voar.
Até mesmo o vôo dos filhos ocorre por etapas.
O desmame, os primeiros passos,
o primeiro dia na escola,
a primeira dormida fora de casa,
a primeira viagem…
Desde o nascimento de nossos filhos
temos a oportunidade de aprender
sobre esse estranho movimento de ir e vir,
segurar e soltar, acolher e libertar.
Nem sempre percebemos que esses momentos
tão singelos são pequenos ensinamentos
sobre o exercício da liberdade.
Mas chega um momento em que a realidade
bate à porta e escancara novas verdades
difíceis de encarar.
É o grito da independência, a força da vida
em movimento, o poder do tempo
que tudo transforma.
É quando nos damos conta de que nossos
filhos cresceram e apesar de insistirmos
em ocupar o lugar de destaque, eles sentem
urgência de conquistar o mundo longe de nós.
É chegado então o tempo
de recolher nossas asas.
Aprender a abraçar à distância,
comemorar vitórias das quais
não participamos diretamente,
apoiar decisões que caminham para longe.
Isso é amor.
Rubem Alves - (1933-2014)