27/06/2021
Identificada... e certa que minhas companheiras vão se identificar também :)
Belchior e brechó: coisa de velho?
👴
Você me pergunta pela minha paixão. Digo que sou encantado com antiquários, brechós, sebos, mercados de pulgas, ferros-velhos e feiras do rolo. Ah, o cheirinho de história do livro velho, a customização da página amarelada com furinho de cupim, as grafias curiosas dos manuais de ‘Sciencias’ da época da ‘Pharmacia’, a assinatura do antigo dono, tudo é divino, tudo é maravilhoso.
Os demais objetos, então... Nem me fale. Gosto das marcas de usado, das ferrugens, do detalhe rachado, da tinta descascada de cada badulaque, bibelô, penduricalho, bugiganga, móveis e objetos antigos – testemunhas de outros tempos, que me contam histórias incríveis de uma época em que eu queria ter vivido, desde que tivesse internete.
Sou um rato de sebos, um garimpeiro de brechós. Foi num desses que comecei a ouvir Belchior, quando um LP do álbum ‘Alucinação’ me encontrou. (Sim, eu também acho um charme só o som chiado dos vinis.) Foi ali que descobri que a sensacional canção ‘Como os nossos pais’, famosa na voz de Elis Regina, era uma composição do bigodudo, fazendo minha admiração só aumentar.
Num desses bricabraques, achei uma portinhola de madeira, parte de um armário antigo de cozinha. É aquela ali da foto. Pirei naquela pátina azul que os anos se encarregaram de fazer. Comprei feliz aquela lindeza onde pintei a silhueta do rapaz latino-americano sem dinheiro no banco e a frase mais clichê de sua autoria, repetida frequentemente por quem não segue seu significado: “Amar e mudar as coisas me interessa mais”.
Interessa-me tudo desse cantor e compositor cearense, inclusive sua etimologia. Seu nome artístico vem de um de seus sobrenomes: Antônio Carlos Gomes Moreira Belchior Fontenelle Fernandes. Belchior é uma modificação de Melquior (Melchior, em latim), nome de um dos bíblicos Três Reis Magos, que teriam visitado o recém-nascido Jesus. Melchior vem do hebraico ‘melichior’, que significa ‘rei da luz’.
Além do rei e do cantor, outros dois “Belquióres” deixaram sua marca na humanidade, porém com muito menos fama.
Belchior Nunes Carrasco foi o mais famoso executor português do século XVII. Ele viveu e matou em Lisboa, onde, durante muitos anos, foi o algoz oficial do Estado. Sua carreira de torturas e execuções fez com que seu sobrenome virasse substantivo comum: carrasco.
No século XIX, com uma atividade bem mais tranquila, um comerciante chamado Belchior ficou famoso no Rio de Janeiro por abrir a primeira casa de compra e venda de roupas e objetos usados, a Casa de Belchior. Machado de Assis, no conto ‘Idéias de Canário’, de 1889, até menciona uma “loja de belchior” (pronunciado /belxiór/). Com o tempo, com as alterações que o povo naturalmente faz, belchior passou a berchior e, depois, brechó.
Talvez Belchior não soubesse que justamente nos brechós nos depararíamos com tantos de seus discos, onde eu o encontrarei sempre – sempre que o tempo me permitir voltar no tempo.
Longe dos modismos efêmeros dos tempos atuais, entre discos, livros e tralhas, etimologias e histórias, encontro um conforto que me faz ter saudades do que eu nunca vivi. Sei que assim falando pensas que essa nostalgia é moda desse povo metido a víntage. Mas reconheço que sou eu que amo o passado e que não vejo que o novo sempre vem.
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