06/10/2025
O chão sagrado que virou saudade — e resistência
Em agosto de 2025, a Justiça determinou a demolição da Tenda de Umbanda Vovó Caxambi, em Camboriú (SC), para obras da Emasa. A decisão veio com a promessa de que o município garantiria à mãe de santo Luíza Moreira e a seu filho um novo lar que também abrigasse suas práticas religiosas. Enquanto isso, vivem em uma casa alugada pela Prefeitura.
A Tenda Vovó Caxambi existiu por mais de 13 anos, sustentada na fé e na caridade. Mas o espaço sagrado virou entulho. “O que pega é que não é a nossa casa. Não é o nosso solo sagrado preparado por ela, com terra batida, cinza de fogão e areia de praia”, desabafa Antônio Maicon, filho da mãe Luíza.
A Defesa Civil afirma que o local foi interditado por risco de rompimento de uma adutora. Mesmo compreendendo o perigo, mãe Luíza e seu filho lamentam a perda do terreiro — o espaço onde centenas encontravam acolhimento espiritual.
Com cerca de 111 anos, neta de escravizado e iniciada ainda criança, mãe Luíza sempre dedicou sua vida a curar e amparar quem precisava, sem nunca cobrar pela ajuda.
Para o babalawô Ivanir dos Santos, interlocutor da Comissão de Combate à Intolerância Religiosa, o caso revela uma desigualdade histórica. “O poder público tem destinado terrenos e imóveis para igrejas. Por que não destinar também para os religiosos de matriz africana? Se o Estado é laico, precisa tratar todos de forma igual”, afirma. Ele alerta ainda que “as políticas públicas de combate à intolerância religiosa ainda não alcançaram o tecido social como deveriam”.
“A gente não quer nada além do que é nosso”, diz Antônio. “O evangélico tem o lugar dele, o católico tem o dele… e nós, povos de terreiro, também precisamos do nosso.”
✨ Que o axé e a fé de Vovó Luíza encontrem um novo chão — firme, livre e respeitado.