20/11/2025
Meu avô nasceu na tal lei do ventre livre.
Livre só no papel, preso na vida.
Homem feito cedo, casado com minha avó Candinha quando ela ainda era menina.
É desse chão duro que eu venho.
É dessa história torta que minha força nasceu.
Cresci sabendo que pra gente nada cai do céu.
Tudo é arrancado.
Tudo é conquistado com dente travado e fé teimosa.
Malcolm X sabia que o mundo não dá trégua pra quem nasce preto.
Esse sangue corre em mim.
Hoje, quase 60, olho pra trás e vejo a travessia:
Formei todos os meus filhos.
Um por um.
Na garra, no corre, no “eu dou conta”, mesmo quando não dava.
E meu raspa de tacho já tá terminando a faculdade.
Isso pra mim é silêncio de vitória — aquela que ninguém vê, mas a gente sente.
E agora eu olho pros meus netos e penso:
Eles precisam saber de onde vieram.
Precisam entender que nossa linhagem não quebrou.
A gente resistiu.
Sempre resistiu.
Minha avó Candinha dizia:
“Nada vem de graça.”
E essa frase virou escudo, virou norte, virou lei.
Eu não cheguei no lugar que o mundo chama de “sucesso”.
Mas sobrevivi.
E sobreviver sendo mulher preta… é milagre e é política.
Hoje tô mais serena, sim.
Mais quieta por fora.
Mas não deixei de aprender nada.
Só mudei de estratégia.
Porque nesta vida de mulher preta…
a gente precisa aprender a usar as armas.
As nossas armas.
A inteligência, o silêncio certo, a fala firme, o olhar que não baixa, o saber que ninguém tira.
É isso que deixo pros meus:
Força.
Consciência.
Caminho aberto.
Armas limpas e afiadas pela ancestralidade.