02/03/2016
ASPECTOS PSICOLÓGICOS DA INFERTILIDADE
Ter filhos é uma parte fundamental do projeto de vida da maioria dos homens e mulheres. Para muitos, constitui um passo importante para o alcance da maturidade e do desenvolvimento pessoal, além de ensejar o cumprimento de um importante papel social. O obstáculo criado pela infertilidade impõe aos casais que enfrentam o temor da não realização do desejo de maternidade e paternidade um importante sofrimento emocional e social
A infertilidade é um tema bastante antigo na história da humanidade. A impossibilidade de gerar e de ter filhos tem sido tratada através dos tempos e nas mais diferentes culturas, como algo vergonhoso, como um castigo divino. A mulher infértil era rechaçada por seu entorno social e rotulada como incapaz, sendo considerada uma “árvore seca”. Ter filhos era parte inerente à vida e representava uma obrigação para todo casal. Estes valores, embora modificados em parte na cultura moderna, permanecem com força considerável.
Ainda de acordo com a publicação da Fertility and Sterility, revista de referência mundial na área de infertilidade, um grupo americano de New York, demonstrou que 33% das pacientes femininas com problemas de infertilidade apresentam depressão e 59% alto nível de stress. O Estudo demonstrou ainda que homens com diagnóstico de infertilidade apresentam efeitos negativos no comportamento sexual, relacionamento pessoal e social. Em outro estudo australiano de outubro de 2010, publicado na mesma revista, mostrou que o principal motivo da paciente infértil não procurar a ajuda médica é o quadro de depressão ou sintomas depressivos
“A infertilidade é ao mesmo tempo um problema de natureza médica e social; ela ameaça as expectativas das pessoas que, através da procriação, asseguram seu lugar na continuidade das gerações. A esterilidade, neste sentido, tem sido considerada uma “experiência de dilaceração biográfica, caracterizada pelo sofrimento e pelos conflitos pessoais vividos pelos homens e mulheres que atravessam esta situação” Bury, M. (1982). Choric Illness as a biographic discuption. In E. Hardy (Ed.). Reprodução Assistida: Conseqüências Psicológicas e Sociais. Temas de Psicologia em Reprodução Humana, Anais do 18° Congresso Brasileiro de Reprodução Humana, 07-10 de novembro de 1998, Porto Alegre.
“A experiência de infertilidade pode gerar culpa e vergonha, muitas vezes produzindo um estigma social, o qual pode acarretar alienação e isolamento. Uma acentuada queda na auto-estima, carregada de sentimentos de inferioridade, pode acabar por configurar quadros importantes de depressão, ansiedade elevada, podendo desencadear severas perturbações emocionais, na esfera da sexualidade e nos relacionamentos conjugais. Se considerarmos o conceito de saúde da Organização Mundial da Saúde (OMS) o qual diz que: “saúde é o estado de completo bem estar físico, mental e social, não se reduzindo a mera ausência de doença ou enfermidade”, veremos o quanto a infertilidade é um grave problema de saúde em muitos países em todo o mundo, pois incrementa severamente o sofrimento social” (Daar, A. S., Merali Z., (2002). Infertility and social suffering: the case of ART in developing countries. In: Medical, Ethical and Social Aspects of Assisted Reproduction, Effy V., Patric J., Rowe and David Griffin P. (Eds.) Current Practices and Controversies in Assisted Reproduction: report of WHO metting (pp.15-21), Geneva, Swtzerland.)
“Diante da perda ou da ameaça do poder de procriação, muitas vezes não se distingue o que causa maior sofrimento: a ausência do filho desejado ou os sentimentos de fracasso, perda e de insegurança que invadem o indivíduo nesta situação” (Chatel, A. (1988). Sortir la maternité du laboratoire. In Silva, M. M. A (Ed.). Tecnologias Reprodutivas: A concepção em Sexualidade e Reprodução Humana, Montreal (1991).
“A infertilidade é sentida e vivida como um evento traumático para a maioria dos casais, sendo experienciada por eles como o evento mais estressante de suas vidas” (Klonoff-Cohen, H., Chu, E., Natarajan, L., & Sieber, W. (2001). A prospective study of stress among women undergoing in vitro fertilization or gamete intrafallopian transfer. Fertility and Sterility, 76, (4), 675- 687)
“A pressão social e parental para a propagação do nome da família coloca um grande peso sobre os casais inférteis” (Monga, M., Alexandrescu, B., & Katz, S. E. (2004). Impact of infertility on quality of life, marital adjustment, and sexual function. Urology 63 (1), 126-30).)
“O alto valor colocado na família motiva inúmeros casais a se unirem. A inabilidade para realizar esta tarefa social, coloca o casal que não consegue conceber um filho sob forte pressão. O conceito de si mesmo se vê constituído sob a égide da desvalia e da incapacidade, chegando os indivíduos a se verem como defeituosos (Seibel, D., & Carvalho, C. A. P. (1998, novembro). Respostas Emocionais do casal na reprodução humana. In 18º Congresso Brasileiro de Reprodução Humana, Porto Alegre, Brasil)
“A infertilidade é um luto a ser elaborado. Se não houver aceitação desta condição, permanece o sentimento de impotência diante da concepção. Aceitar a limitação do corpo para conceber naturalmente é o primeiro passo para diminuir o próprio preconceito contra os tratamentos que envolvem as técnicas de reprodução humana assistida", acredita Joji Ueno, especialista em reprodução humana.