27/04/2026
A escultura que viralizou nas redes sociais não é apenas uma peça impressionante, mas uma obra com nome, autor e uma longa tradição artística por trás. Trata-se de Ondina Emergindo das Águas, criada pelo escultor americano Chauncey Bradley Ives em Roma, por volta de 1880.
Esculpida a partir de um único bloco de mármore branco, a obra chama atenção pela ilusão quase impossível de transparência: o véu parece molhado, colado ao corpo e cheio de dobras delicadas, embora tudo seja pura pedra. Não há tecido nem qualquer outro material, apenas mármore trabalhado com extrema precisão.
A personagem retratada vem de um conto alemão publicado em 1811 por Friedrich de la Motte Fouqué. Ondina é uma ninfa aquática que conquista uma alma humana ao se casar com um cavaleiro mortal. Quando ele a trai, ela é obrigada, pela lei de seu povo, a tirar sua vida. A escultura representa justamente o momento em que ela emerge das águas para cumprir esse destino.
Essa técnica de representar tecidos aderidos ao corpo tem nome: drapejado molhado. Sua origem remonta à Grécia helenística, em obras como a Vitória de Samotrácia, e foi retomada no Renascimento. No Barroco napolitano, ganhou destaque com o famoso Cristo Velado, de Giuseppe Sanmartino, em 1753, tornando-se ainda mais popular no século XIX, quando escultores italianos e americanos disputavam quem conseguia criar o véu mais delicado em mármore.
Além da beleza técnica, o véu também carregava um significado simbólico. No século XIX, durante o Risorgimento, movimento pela unificação da Itália, figuras femininas veladas passaram a representar um país oculto, à espera de ser revelado.
O que parece tecido é pedra. O que parece um efeito impossível é resultado de séculos de tradição artística. E o que parece magia é, na verdade, a habilidade de um escultor que dedicou a vida a fazer o mármore enganar os olhos.