Tudo que eu gosto By Maria Gonçalves

Tudo que eu gosto By Maria Gonçalves Página para quem gosta de belas imagens e belas palavras!

15/09/2025

Quando eu tinha 13 anos, carregava uma vergonha secreta. Éramos tão pobres que muitas vezes eu ia para a escola sem nada para comer. No recreio, enquanto meus colegas abriam suas marmitas — maçãs, bolachas, sanduíches — eu fingia não sentir fome. Enterrava o rosto em um livro, tentando esconder o som do meu estômago vazio. Por dentro, a dor era maior do que eu poderia explicar.

Até que, um dia, uma menina percebeu. Silenciosamente, sem chamar atenção, ela me ofereceu metade do seu lanche. Eu fiquei envergonhado, mas aceitei. No dia seguinte, ela fez de novo. E depois de novo. Às vezes era um pão, às vezes uma maçã, outras vezes um pedaço de bolo que a mãe dela havia feito. Para mim, era um milagre. Pela primeira vez em muito tempo, eu me senti visto.

Mas então, de repente, ela se foi. A família dela se mudou, e ela nunca mais voltou. Todos os dias, no recreio, eu olhava para a porta, esperando que ela entrasse com o seu sorriso e seu sanduíche. Mas isso nunca aconteceu.

Ainda assim, carreguei comigo a bondade dela. Ela passou a fazer parte de quem eu era.

Os anos se passaram. Cresci. Pensei nela muitas vezes, mas a vida seguiu.

Então, ontem, algo aconteceu que me fez congelar no lugar. Minha filha pequena voltou da escola e disse:
— Pai, amanhã podes preparar dois lanches para mim?
— Dois? — perguntei. — Tu nunca consegues terminar um.
Ela me olhou com a seriedade que só uma criança pode ter:
— É para um menino da minha turma. Ele não comeu nada hoje. Eu dividi o meu com ele.

Fiquei parado, arrepiado, como se o tempo tivesse parado. No gesto simples da minha filha, eu vi aquela menina da minha infância. A mesma que me alimentou quando ninguém mais percebeu. A bondade dela não desapareceu — ela atravessou em mim e agora vive também na minha filha.

Saí para a varanda e olhei para o céu, com os olhos cheios de lágrimas. De uma vez só, senti a fome de ontem, a vergonha, a gratidão e a alegria.

Aquela menina talvez nunca se lembre de mim. Talvez nem saiba a diferença que fez. Mas eu jamais a esquecerei. Porque ela me ensinou que até o menor gesto de bondade pode transformar uma vida.

E hoje eu sei: enquanto minha filha continuar a repartir o pão com outra criança, a bondade jamais morrerá.

literatura?

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Casou-se aos 14 anos e ficou viúva aos 20. Com uma filha pequena nos braços, sem estudos e lavando roupa por apenas um dólar e meio por dia, ninguém ousaria imaginar que aquela jovem chamada Sara Breedlove entraria para a história como a primeira mulher afro-americana a construir, com as próprias mãos, uma fortuna milionária.

Nascida em 1867, no Louisiana, filha de pais que haviam sido escravizados, perdeu a mãe aos sete anos e logo depois também o pai. O destino parecia já traçado: miséria e esquecimento. Mas Sara recusou-se a aceitar o papel que a sociedade queria lhe impor. Suas mãos queimadas pelos produtos químicos da lavandaria quase a deixaram careca — e desse problema nasceu sua revolução. Testou fórmulas, encontrou soluções e, com coragem, lançou sua própria linha de produtos de beleza voltada para mulheres afro-americanas.

Em 1906, ao casar-se com Charles J. Walker, adotou o nome pelo qual seria lembrada em todo o país: Madame C.J. Walker. De cidade em cidade, ensinava mulheres a cuidarem dos cabelos, mas também algo muito maior: a cuidarem da própria independência. Em poucos anos, abriu escolas, salões e fábricas. Em 1917, já empregava mais de 20 mil mulheres, que não apenas vendiam seus produtos, mas aprendiam a administrar o próprio dinheiro e a abrir os próprios negócios.

Sua riqueza cresceu, mas Sara jamais esqueceu suas origens. Foi filantropa incansável, financiou causas contra a discriminação e determinou em testamento que dois terços de seus ganhos futuros fossem destinados à caridade.

Morreu em 1919, aos 51 anos, com um patrimônio superior a meio milhão de dólares. Dois anos depois, a expansão da sua empresa a tornaria oficialmente milionária.

Madame C.J. Walker não buscava luxo nem vaidade: buscava poder para transformar vidas. Sua história prova que a verdadeira grandeza nasce da resiliência — a força de transformar a dor em oportunidade e a adversidade em legado.

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