05/08/2026
É uma imagem simples de ler: uma mãe, duas crianças, na água, possivelmente no mar, a brincar com uma prancha ou boia. sorrisos na cara, luz de verão. férias. momentos felizes.
Quando vi a fotografia sorri e automaticamente pensei em tudo o que ela não mostra. Não porque esteja a esconder nada mas porque há sempre um mundo de invisibilidades nas nossas imagens.
Como na vida.
Para poder estar na água a brincar com os meus filhos, retiro os processadores dos implantes cocleares, tal é o medo de perder algum. (Na verdade só tenho capa de água para um deles pois cada peça extra custa uma pequena fortuna.)
Fico com a audição a zero, pelo que esta imagem, na minha vida, não tem banda sonora.
Como não tenho sistema vestibular, andar na água é muito desconcertante. Se me escorregar um pé e perder o contacto com o chão é como se caísse no abismo. Significa que não sou, nunca, o adulto responsável pelos meus filhos, quando estamos dentro de água.
Momentos como estes, tão naturais noutras famílias, existem na minha por pedidos recorrentes dos meus filhos. Afinal, quem não quer brincar no mar durante as férias?
Nesta imagem de felicidade é invisível a minha tensão interna, o esforço para me equilibrar, o desejo de ser só uma mãe normal a brincar na praia. E o olhar vigilante do adulto por detrás da fotografia.
Nos dias que correm é essencial sabermos ler imagens. O que mostram, o que dizem, o que insinuam. Mas é igualmente importante termos consciência de que numa imagem existem coisas invisíveis. Que pertencem a quem lá está, que pertencem a quem a tirou.
Que esta consciência nos ajude a relativizar as imagens perfeitas da vida dos outros.
Boas férias, com tudo o que é invisível em cada uma de nós.