25/03/2026
Das alfaias da “muy nobre arte da alfaiateria” cinco são, indiscutivelmente, suas maiores representativas: a fita, a escala, o dedal, a tesoura e o ferro.
Se actualmente a tesoura é o símbolo que mais surge associado aos alfaiates, noutros tempos os demais símbolos a igualaram em importância e representatividade da classe.
A “obra” de alfaiate passa por várias fases e, noutros tempo, por uma estabelecida hierarquia de operários desde o aprendiz, o ajudante, o meio-oficial, o oficial, o contra-mestre e o mestre. Para além destas "categorias profisionais" existia a distinção por “obra”: o coleteiro, calceiro, casaqueiro ou oficial de paletó, o acabador, o passador, o cortador ou oficial de “mesa”.
Na realidade portuguesa - semelhante à tradição italiana e espanhola, ao contrário da inglesa e francesa - estas categorias estavam muito dissolvidas entre os operários, sobretudo nos ambientes mais rurais onde o alfaiate é quase exclusivamente da responsabilidade de um operário apenas ou do seu núcleo famíliar.
Mas retomemos o foco no ferro: das várias fases da obra de alfaiate três são as mais exigentes e que requerem maior patente: o risco e corte (também conhecido como feitio ou talhe), o trabalho de ferro e a prova.
Se no primeiro há que juntar o conhecimento de determinado sistema de corte à experiência obtida com a prova, apenas o trabalho de ferro se demonstra como conhecimento quase único que, aliado ao conhecimento da anatomia do corpo, se “manobra”, “estira” e “recolhe” o tecido numa sabedoria que ante coser, transforma a bidimensão em tridmensão.
Este conhecimento está muito associado à tradição da alfaiataria e ao conhecimento do material em uso, sendo que apenas utilizando água e conhecendo os princípios da teia e trama de determinado tecido se o recolhe ou se o estica, formando assim volumes que tornam o planar risco em moldes corporais.
A história do ferro na alfaiataria é algo complexa, ao que me tomarei sucinto pela mesma: são amplamente conhecidos ao longo dos séculos e com a industrialização do século XIX - quer das oficinas de alfaiate, quer das fundições de ferro - surgem os mais variados modelos e tamanhos, podendo ser de “assento”, “cunha”, “chaminé” ou “galo”, modernizando-se ao longo do séc. XX para os “de álcool”, a “petróleo” e eléctricos “de mica”, “reguláveis” e, por fim, a v***r.
Ao longo dos próximos dias o nosso alfaiate irá partilhando artefactos da sua colecção e outras imagens para a valorização desta arte e do símbolo que é o ferro, agora escolhido para identificar o Alfaiate do Povo.
Na imagem, notar a presença dos símbolos acima mencionados, a associação de classe dos alfaiates e costureiras "A Patriota" da Póvoa de Varzim, Porto (já existente em 1919), ca. 1940; col. particular da família da Alfaiataria Bento (Póvoa de Varzim)