07/02/2026
A tempestade Kristin também deixou a sua marca por aqui. Felizmente, nada comparado com o caos e a desolação que nos rodeiam, mas ainda assim o suficiente para nos dar um bom abanão em vários sentidos. E olhem que não me refiro ao vento!
Em quase 50 anos de vida, nunca senti tanto medo nem tanta impotência. Além de abraçar e confortar os meus (e eles a mim), de nos assegurarmos que nada nos atingia nem era derrubado dentro/para dentro de casa, pouco mais pude fazer.
Quatro dias sem água, uma semana sem luz (pior, sem poder trabalhar!) e um silêncio esmagador, que a noite aprofundava de um modo ainda mais tenebroso, como se de repente tudo pudesse repetir-se.
Com o regresso da electricidade, retomou-se um pouco a "normalidade" possível. Com as engenhocas do meu Amor, ressuscitaram-se um modem antigo e um hotspot e conseguimos sair um pouco do isolamento em que estávamos. Temos internet nos telemóveis e nos computadores, acesso a mais informação, alguma da qual bem podia permanecer oculta de tão abjecta.
Nesta quinta-feira, dia 5, consegui retomar o trabalho. Contudo, o choque do regresso foi grande e não consegui completar o horário do meu turno. Senti-me presa num turbilhão emocional indescritível e "desabei". Estou inserida numa equipa indescritível de tão humana e calorosa, que me acompanhou sempre desde o instante em que soube que a Kristin também por aqui passara, que moveu mundos e fundos para me e nos fazer sentir que não estávamos sozinhos, que não soltou a nossa mão. Nem solta. Ouvi-los... mexeu comigo. Muito. Tanto.
Hoje já foi melhor. Mesmo com todos os fantasmas que, entretanto, decidiram regressar (mas já estão a despedir-se), todos os medos ainda muito à flor da pele, fiz o que me competia. Cumpri o turno. Em silêncio. Porque muitas vezes a cura está no que libertamos em nós na nossa própria companhia, para que possamos ganhar espaço para acolher em pleno quem nos rodeia, quem nos quer bem.
Quanto aos estragos materiais, tudo se resolverá, a seu tempo e da melhor forma possível. É assim mesmo
Só me falta conseguir cumprir o maior desafio: dormir.
Porque o medo, esse, sussurra: E se o vento volta?
Rosália Sousa Caneparo
6 de Fevereiro de 2026